
Livro: Para entender a internet
Este texto foi publicado pelo Luli Radfahrer no livro Para Entender a Internet, vale a pena ser lido, afinal como ele próprio conclui o texto “uma coisa é certa: a Internet do futuro será móvel.”
Quem quiser entender a revolução das tecnologias móveis precisa parar de pensar em Internet no telefone e passar a considerar as possibilidades que surgem em um mundo que praticamente qualquer aparelho, de qualquer tamanho, pode coletar as informações do seu contexto (ambiente, dados pessoais, hora e histórico, só para citar algumas fontes), interligá-las, calculá-las e compará-las com bancos de dados imensos, distribuídos pelo mundo, instantaneamente e praticamente sem custo.
As novas tecnologias - e idéias - que vêm surgindo a partir da computação móvel até pareceriam ficção científica, mas a vida é muito mais criativa do que a arte. Se as aplicações em medicina e ciência não empolgam você (e as de segurança dão calafrios), imagine uma situação bem mais prosaica: em um restaurante, o cardápio se adapta a você, a suas necessidades de saúde, a seus objetivos em estilo de vida, hábitos e histórico. Assim ele será capaz de determinar instantaneamente pratos, porções e preços que variam de pessoa para pessoa, levando também em consideração os estoques, movimento da cozinha e horário. O resultado é um cardápio mais saudável, gostoso e barato para o cliente e, ao mesmo tempo, eficiente para o restaurante. Nada mais sensato. E, no entanto, ainda impensável nos parâmetros de hoje.
Comunicação, não se pode esquecer, é uma via de mão dupla: os mesmos aparelhos que acessam a Internet de qualquer lugar também podem (e devem) ser usados para transmitir dados a respeito do ambiente em que estão e de seu movimento. Qualquer aparelho de computação móvel - telefone, notebook, videogame, rádio, GPS, automóvel ou chip eletrônico implantado sob a pele - representa mais um ponto agregador de conteúdo. Graças a essas tecnologias em breve não será mais preciso “alimentar” o sistema com vários dados, já que muitos deles poderão ser coletados automaticamente. Considere o trânsito, por exemplo. Hoje são necessários observadores, antenas, câmaras e sensores espalhados pela cidade para que se possa fazer uma medição razoável. Apesar dessa estrutura ser bastante cara e frágil, ela está muito longe de ser perfeita. A partir do instante que cada automóvel e telefone puder coletar dados e transmiti-los anonimamente para uma central, o mapa do trânsito será muito preciso, atualizado instantaneamente e - o melhor - quase gratuito.
A diferença entre o que conhecemos por web hoje e a Internet móvel é muito maior do que o abismo que separa uma carta de um e-mail. Mais do que acessar a rede - e seus documentos, amigos, notícias e trabalho - de qualquer lugar, em breve viveremos em um ambiente em que será muito difícil separar o ambiente físico do digital. É surpreendente, mas como temos uma enorme capacidade de adaptação, poucos parecem estar surpresos. A maior parte das tecnologias que tornam a Internet uma ferramenta poderosa de interação social e trabalho, por exemplo, não existiam há cerca de dez anos.
Outro ponto que deve ser levado em conta é que ninguém vive só, e que as mídias sociais (Blogs, Microblogs, Wikis, redes sociais, comunicadores instantâneos, fóruns, metaversos e outros) se tornaram rapidamente as novas praças públicas. Graças a ela é possivel se relacionar com muito mais pessoas que seria possível em qualquer ambiente físico. Quem tem um blog visitado e comentado, segue e é seguido por várias pessoas em um Twitter, tem o MSN ou o Skype ativo e participa de redes sociais chega a entrar em contato com centenas (alguns até milhares) de pessoas por dia, tudo isso nas poucas horas em que fica sentado em frente a um computador. Tecnologias móveis permitirão em breve que os lugares físicos e digitais se misturem a ponto de fazerem pouca diferença. Você poderá comparecer a uma festa munido de um aparelho que parecido com um par de óculos escuros, com fone de ouvido e microfone. Ligado à Internet, esse aparelho permitirá que você converse com seus amigos, conte e ouça histórias, compartilhe músicas e se divirta muito, por mais que, para os “velhos” de hoje, você esteja estranhamente solitário, dançando em silêncio, no seu quarto.
Mas isso tudo ainda são idéias. Por mais que o número de celulares no Brasil chegue a ser mais de sete vezes maior do que o número de computadores, o acesso à Internet móvel ainda é caro, lento e restrito. Algumas redes de telefonia celular de terceira geração (chamadas de 3G) melhoram um pouco a situação, mas ainda estão muito aquém do desejável tanto em termos de preço e velocidade. Mas se levarmos em conta que uma linha de telefone já chegou a custar mais de quatro mil dólares e um PC, cerca de dez mil, tudo indica que o barateamento dessas tecnologias será progressivo e rápido, a ponto de preocupar os administradores de rede quanto a um possível congestionamento dos servidores daqui a pouco tempo.
A evolução é grande, e é um efeito de gerações. Enquanto as tecnologias são novas, os termos são muitos e as disputas razoavelmente técnicas. Sistemas operacionais como Symbian, iPhoneOS, WindowsMobile, Blackberry, Palm e Android brigam entre si para ver quem será o padrão a ser seguido pelas diversas maquininhas, com nomes não menos estranhos. Tecnologias como Bluetooth, WiFi, WiMax, Mesh, EDGE, EVDO, UMTS ou 3G fazem o mesmo pra determinar os parâmetros de transmissão de dados. Se você não se interessa por esses termos, não se preocupe: como TVs de plasma, fitas Betamax, cartuchos de som ou disquetes, a maioria desses parâmetros desaparecerá em breve. O que restará serão modelos de negócios e usos da tecnologia que, independente de seu fabricante, serão inteligentes, compatíveis e ágeis. Como você pretende usá-los é o que fará a diferença.
Uma coisa é certa: a Internet do futuro será móvel. Até porque, além de todos os argumentos citados neste capítulo, mobilidade faz sentido. Ninguém nasceu sentado em uma cadeira, curvado sobre um monitor e teclado.